Disposto a tentar uma última cartada para virar o jogo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, o presidente afastado da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tem avisado a aliados que irá renunciar ao posto, mantendo apenas o mandato parlamentar, caso consiga vencer a disputa no colegiado. Está em jogo um recurso em que Cunha faz questionamentos à atuação do Conselho de Ética na aprovação de um parecer que recomenda sua cassação no plenário da Casa. Se vencer, Cunha pode conseguir levar o caso praticamente à estaca zero.

Nos últimos dias, aliados de Cunha têm aconselhado mais decididamente o peemedebista a desistir da queda de braço para manter o comando da Casa. Inicialmente, ouviam uma rejeição total da ideia. Depois, Cunha passou a dizer que não era a hora adequada para isso. Agora, já aceita renunciar como concessão a uma eventual vitória na CCJ.

A comissão possui 66 deputados, e Cunha calcula ter por volta de 27 a 31 votos a favor de seus questionamentos. Com a promessa de renunciar em seguida, ele pode tentar obter os votos que faltam para obter a maioria simples necessária para atrasar seu processo (34 votos).

A aposta dos aliados de Cunha é que o parecer do deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF), apoiador de Cunha de longa data, acatará pontos levantados pela defesa, como o impedimento do relator Marcos Rogério (DEM-RO). Com isso, todo o trâmite no Conselho de Ética estaria invalidado, e um novo relator teria que ser escolhido para a construção de um parecer, que passaria por todas as etapas e votações novamente.

“Se ganhar na CCJ, ele renuncia à presidência (da Câmara)”, afirmou um de seus aliados mais próximos.

Na luta para ganhar votos, Eduardo Cunha trabalha forte as negociações com o chamado “centrão”. Com a renúncia, Cunha abriria o caminho para uma nova eleição para o comando da Casa, hoje ocupada interinamente por Waldir Maranhão (PP-MA), que tem desagradado aos colegas. A partir daí, o grupo de Cunha apoiaria a eleição do líder do PSD, Rogério Rosso (DF), que compõe o centrão, para o mandato-tampão, que termina em fevereiro do próximo ano.

Argumentos – Apesar dos acordos de bastidores, oficialmente, na versão ensaiada para a renúncia, Eduardo Cunha tentará apontar que seu gesto busca preservar a Câmara da gestão errática do interino Waldir Maranhão (PP-MA). Isso ajudaria principalmente o governo do presidente em exercício, Michel Temer (PMDB), com quem Cunha se encontrou nas últimas semanas. Cancelando sessões de votação e sem apoio para comandá-las, Maranhão vem prejudicando os interesses do governo, que quer votar rapidamente projetos que possam gerar notícias positivas antes da definição do impeachment.

Apesar do apoio velado do governo e de seu partido, que articula uma abstenção em massa no dia da votação, os aliados avisam que não há como garantir a vitória na CCJ, que para isso Cunha terá que trabalhar com os demais aliados.