The new Apple iPhone 6S and 6S Plus are displayed during an Apple media event in San Francisco, California, September 9, 2015. REUTERS/Beck Diefenbach ORG XMIT: SAN124

A Apple está investindo no desenvolvimento da próxima geração de vidro fabricado nos Estados Unidos para seus iPhones e iPads, o que pode ter o efeito colateral de melhorar a situação da companhia com a classe política em Washington.

A Apple anunciou na sexta-feira (12) que estava investindo US$ 200 milhões na Corning, fabricante dos revestimentos resistentes a arranhões que recobrem os iPhones e iPads, com o objetivo de ajudá-la a desenvolver e produzir vidros mais sofisticados em sua fábrica em Harrodsburg, Kentucky.

A Corning fabrica o vidro usado em todos os iPhones, desde o lançamento do modelo original, dez anos atrás. O investimento da empresa, o primeiro realizado pelo fundo de US$ 1 bilhão criado pela gigante da tecnologia para promover processos industriais avançados nos Estados Unidos, ajudará a Corning a desenvolver vidros mais finos e versáteis para o iPhone e outras linhas de produtos que a Apple está explorando, como telas para carros autoguiados e óculos de realidade aumentada.

A decisão vai além da tradicional prática de subsidiar fornecedores adotada pela Apple, disse Tim Bajarin, presidente da consultoria de tecnologia Creative Strategies.

“Eu veria o investimento como uma parceria entre Apple e Corning para determinar em que outras coisas o vidro pode ser usado”, ele disse. “Eles estão literalmente pensando sobre coisas em que eu e você ainda não estamos pensando”.

O investimento também é um gesto de boa vontade para com os republicanos, incluindo o presidente Donald Trump, que já criticou a Apple por fabricar seus iPhones na China, e o líder da bancada republicana no Senado, Mitch McConnell, senador pelo Kentucky.

A Apple informou ter gasto US$ 50 bilhões no ano passado junto a fornecedores norte-americanos, ainda que só uma de suas linhas de produtos, o quase obsoleto computador Mac Pro, seja fabricada nos Estados Unidos.

No mês passado, Trump delineou um plano que reduziria a alíquota dos impostos pagos por empresas e ofereceria incentivos especiais a companhias que optassem por repatriar lucros retidos no exterior.

A Apple tem reservas de caixa mais altas que qualquer outra empresa norte-americana –US$ 257 bilhões em 1º de abril–, e virtualmente todo esse dinheiro está estacionado em contas bancárias no exterior, sobre as quais a empresa não paga impostos.

Tim Cook, o presidente-executivo da Apple, se queixou repetidamente de que os impostos norte-americanos são altos demais e prometeu que o dinheiro da empresa não seria repatriado até que os impostos caíssem.

Em uma demonstração explícita das implicações políticas do acordo entre a Apple e a Corning, o senador McConnell participou do anúncio formal da parceria na sexta-feira, junto a executivos das duas empresas, na fábrica da Corning em Harrodsburg, construída há 65 anos.

“Como milhões de pessoas em todo o mundo, a última coisa que olho antes de dormir e a primeira coisa que olho ao acordar é meu iPhone”, disse McConnell. “Mas diferentemente de milhões de pessoas em todo o mundo, penso em Harrodsburg, Kentucky, e no Gorilla Glass que o pessoal fabrica aqui”.

O senador disse que havia muito que o Congresso podia fazer para ajudar a Corning e a Apple a conquistarem sucesso ainda maior.

“Vamos tentar, por meio de uma reforma tributária abrangente, colocar essas duas empresas em posição melhor para concorrer com companhias de outros países”, ele disse.

Jeff Williams, vice-presidente de operações da Apple, disse que quando Steve Jobs, o fundador da empresa, exibiu o primeiro protótipo do iPhone no evento de lançamento do produto, em 2007, a tela do aparelho era de plástico.

Jobs se queixou de que carregar o iPhone no bolso arranhava a tela com muita facilidade, e ordenou que Williams a substituísse por vidro inquebrável e à prova de arranhões, antes da data de lançamento marcada para dali a seis meses. Vidro como esse só existia em laboratório, na época, mas a Corning correu para conseguir colocá-lo em produção.

“Tudo isso aconteceu bem aqui em Harrodsburg, e a Apple lhes deve muito agradecimentos”, disse Williams aos operários da Corning. (Tradução de Paulo Migliacci)