O grupo extremista Estadxo Islâmico (EI) reivindicou neste sábado (16) o ataque que fez 84 mortos na quinta-feira (14) na cidade francesa de Nice, cometido por um tunisiano sem ligações conhecidas com o Islã radical.

“O autor da operação (…) realizada em Nice, na França, é um soldado do Estado Islâmico. Ele executou a operação em resposta aos apelos do Estado Islâmico para atacar os países da coalizão que combate o EI”, informou a agência Amaq, ligada ao grupo extremista.

Esta reivindicação surge num momento em que não há indícios que relacionem o assassino ao Islã radical.

Na quinta-feira à noite, ele semeou o terror ao lançar o caminhão que dirigia contra uma multidão que assistia à queima de fogos de artifício por ocasião do feriado da Queda da Bastilha na Promenade des Anglais. Ele matou 84 pessoas, incluindo dez crianças.

Segundo uma fonte hospitalar, “16 corpos” seguem sem identificação neste sábado.

Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, um tunisiano de 31 anos e motorista de entregas, em vias de divórcio, era “totalmente desconhecido dos serviços de inteligência (…) e não havia qualquer registro de radicalização”, segundo o procurador de Paris François Molins.

Ele ressaltou, contudo, que este ataque correspondia “exatamente aos apelos permanentes dos jihadistas por assassinatos”.

Cinco pessoas detidas

No comunicado deste sábado, a organização gaba-se do “novo” modus operandi utilizado por “um soldado do EI” para cometer os assassinatos. O EI adverte os “Estados cruzados” que continuará seus ataques, não importa o quão forte seja a sua segurança.

Apesar das ligações do autor do ataque de Nice com o islamismo radical serem questionáveis, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, disse na sexta-feira à noite que o homem “é um terrorista ligado ao Islã radical, de uma forma ou de outra”.

Mas o ministro do Interior francês Bernard Cazeneuve se recusou a confirmar se o homem estava ligado ao islamismo radical.

Mohamed Lahouaiej-Bouhlel era conhecido da justiça apenas por fatos “de ameaças, atos de violência, roubo e vandalismo cometidos entre 2010 e 2016”. De acordo com seu pai, ele sofreu de depressão no início dos anos 2000 e não tinha qualquer ligação com a religião.

“De 2002 a 2004, ele teve problemas que causaram um colapso nervoso. Ele ficava irritado, gritava, quebrava tudo na frente dele”, disse Mohamed Mondher Lahouaiej-Bouhlel à AFP na frente de sua casa na cidade de Msaken (leste da Tunísia).

Quatro homens próximos do tunisino foram colocados sob custódia. A ex-mulher do homem, morto pela polícia após o atropelamento de famílias inteiras e turistas na famosa Promenade des Anglais, permanecia sob custódia neste sábado de manhã.

Oito meses após os ataques jihadistas de Paris (130 mortos), o país voltou ao luto nacional por três dias. Neste contexto de tensão, o presidente socialista François Hollande reuniu um segundo Conselho de Defesa no Palácio do Eliseu antes de encontrar todo o seu gabinete para discutir a situação.

Falhas na segurança?

Muitos jornais questionavam neste sábado como um caminhão frigorífico de 19 toneladas conseguiu entrar na quinta à noite, em meio às comemorações do 14 de julho, em um local reservado aos pedestres e protegido pelas forças de segurança, mobilizadas por um estado de emergência.

O primeiro-ministro Manuel Valls procurou na sexta-feira à noite acalmar as críticas, negando qualquer falha das forças de segurança.

Pelo menos 17 estrangeiros também foram mortos no ataque, incluindo três alemães, dois americanos, três tunisianos e três argelinos.

Um minuto de silêncio será observado na segunda-feira às 12h00 (7h00 de Brasília) no país em memória das vítimas. O presidente francês anunciou a prorrogação por mais três meses do estado de emergência imposto após os ataques de 13 de novembro.

O EI, um grupo ultrarradical sunita que anunciou em 2014 o estabelecimento de um “califado islâmico” em áreas sob seu controle na Síria e no Iraque, realizou ataques mortais em vários países do mundo que deixaram centenas de mortos e feridos.

O grupo extremista lança apelos frequentes para que seus simpatizantes realizem ataques em países envolvidos na coalizão internacional liderada por Washington, que realiza desde setembro de 2014 ataques aéreos contra posições extremistas na Síria e no Iraque.