O câncer é considerado uma doença genética, uma vez que alterações em nosso DNA propiciam o crescimento descontrolado de células que geram os tumores. E, embora a maior parte das pessoas adquira essas alterações ao longo da vida, outras já nascem com elas. Por isso, os especialistas são capazes de fazer estimativas do risco de uma pessoa desenvolver câncer a partir da interação entre os genes e o ambiente.

“Durante a consulta de aconselhamento genético, é feita uma coleta detalhada da história clínica do paciente e de seus familiares, com construção do heredograma (árvore genealógica) e realização de exame físico morfológico minucioso, na tentativa de identificação de alguma síndrome hereditária de predisposição ao câncer. Lançamos mão também de softwares e aplicativos de probabilidades de riscos, utilizados como auxiliares na consulta médica”, explica o médico geneticista Henrique Galvão.

Segundo ele, além das variáveis hereditárias, outros fatores entram no cálculo de risco relativo para aparecimento de câncer, como idade, Índice de Massa Corporal (IMC), idade da primeira menstruação, densidade mamária aumentada à mamografia etc. Tendo-se essas informações em mãos, cada caso é analisado individualmente, e o especialista irá determinar se há ou não a indicação para a realização dos testes genéticos e qual tipo será solicitado.

“De acordo com as recomendações de agências reguladoras internacionais, não está indicada a realização indiscriminada de testes como forma de ‘screening’ (rastreamento), pois a interpretação do resultado depende da presença de variantes genéticas de significado incerto. Há uma ínfima, mas possível, chance de resultado falso positivo”, explica.

Benefícios – A avaliação genética dos pacientes que recebem indicação para esse rastreamento pode possibilitar a detecção de tumores em estágio precoce. “Ao definirmos classes de risco (alto risco, risco moderado e risco habitual para câncer de mama, por exemplo) em indivíduos sadios, podemos traçar estratégias de acompanhamento mais específicas para cada um deles”, comenta.

O geneticista destaca ainda que mulheres com risco maior que 30% de desenvolver câncer de mama ao longo da vida se beneficiam com rastreamento com ressonância magnética. “Quanto mais precocemente um tumor é detectado, maiores as chances de cura”, frisa Galvão.

Diante dessa realidade, as pessoas que têm casos de câncer na família devem analisar com um médico de confiança a necessidade de acompanhamento. “Ao discutir os aspectos de saúde da família como um todo, o oncologista ou outro especialista assistente avaliará a necessidade de encaminhamento para uma clínica de alto risco para estudo aprofundado. Quanto mais jovem for a pessoa afetada, mais indivíduos na família tiverem diagnóstico de câncer ou houver um tipo raro de tumor detectado, maior a indicação de consulta com um médico geneticista”, alerta.

Caso Jolie – Um caso de risco futuro estimado de câncer de grande repercussão foi protagonizado pela atriz Angelina Jolie, que, em 2015, retirou as mamas e os ovários pelo risco de desenvolver tumores nesses órgãos.

Contudo, Galvão afirma que são raros os casos em que se propõe cirurgia redutora de risco para as mamas. “Mesmo assim, esses casos são vistos como uma opção, e não como um procedimento obrigatório. Essa proposta é adequada a mulheres portadoras de mutação nos genes BRCA1 ou BRCA2 ou em mulheres que tiveram lesões multifocais com atipia celular detectada em biópsia. Indivíduos afetados por síndromes específicas devem ser submetidos a cirurgias redutoras de risco”, exemplifica.

Ainda segundo Galvão, essa área vem obtendo avanços ao longo dos anos. Um exame que custava R$ 10 mil há cinco anos, hoje, tem um preço bem mais baixo.

“Com o acesso facilitado aos testes genéticos, temos que nos atentar agora para a qualidade e para a justificativa de solicitação de cada um deles. Tivemos grandes avanços devido à disseminação desses exames para a prevenção do câncer. Cabe a nós, agora, ser conscienciosos no julgamento de utilidade clínica desses exames”, conclui o especialista. (Por Renata Abritta)