São Paulo – O Brasil registrou 10.520 homicídios de crianças e adolescentes em 2013, o equivalente a quase 29 casos por dia. A quantidade, que só tem crescido desde 1980, coloca o país como o terceiro mais violento do mundo em comparação com outras 84 nações, atrás de México e El Salvador – excluindo somente países com conflitos recentes, como a Síria.

A tendência das estatísticas aponta que o cenário de violência contra esse público deve continuar crescendo nos próximos anos. Os dados, divulgados ontem, integram um estudo encomendado pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

A análise mostra que as mortes de crianças e adolescentes por causas naturais sofreram queda de 78,5% nos últimos 33 anos, enquanto os óbitos por causas externas – denominação que inclui acidentes de trânsito, suicídios e homicídios – cresceram 22,4% no período.

O que explica esse crescimento, segundo a análise, é “a escalada de um flagelo que se transformou, ao longo dos anos, na maior causa de letalidade de nossas crianças e nossos adolescentes: a violência homicida”. Em analogia, o estudo lembra que a quantidade de crianças e adolescentes mortos diariamente equivale a 3,6 chacinas da Candelária, que deixou oito jovens mortos, em 1993, no Rio.

x

“Se a chacina levantou indignação, protestos e mobilização da sociedade – pelo brutal extermínio de crianças, adolescentes e jovens, exatamente nas idades que estamos hoje tratando –, esse outro extermínio, bem maior, contínuo e crescente, permanece oculto sob um véu de indiferença”, informa o estudo.

Maioria. Os dados revelam que crianças e adolescentes negros são 178% mais vítimas de homicídio do que brancos. Em 2013, no conjunto da população de até 17 anos, a taxa de homicídios de brancos foi de 4,7 por 100 mil, e a de negros, 13,1 por 100 mil.

Quando se foca nos adolescentes de 16 e 17 anos, a taxa de homicídios de brancos foi de 24,2 por 100 mil. Já a taxa de adolescentes negros foi de 66,3 em 100 mil.

Além disso, armas de fogo estiveram presentes em 78,2% dos homicídios de crianças adolescentes de até 17 anos em 2013.

Menina morre com tiros na parte íntima

Rio de Janeiro. Parte dessa preocupante estatística de violência, a menina Kelly Gisele, 15, morreu após ser baleada com cerca de dez tiros na parte íntima, em Queimados, na baixada fluminense. A adolescente foi sepultada ontem.

A Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) investiga o caso. O ex-namorado de Kelly, que é militar, será convocado para depor. A família da vítima o acusa de envolvimento. Outra linha de investigação é a de que Kelly teria se envolvido com um traficante da região.