O empresário Marcelo Odebrecht disse nesta 4ª feira (7.nov.2018) que a reforma no sítio de Atibaia (SP) foi “a primeira vez em que estaria fazendo uma coisa pessoal para Lula“.
“Quando soube a obra já estava em andamento, deve ter sido lá para o final de dezembro [2010]. Em algum momento eu soube, não sei se por Alexandrino, pelo meu próprio pai [Emílio Odebrecht] ou por alguém que eu me encontrei. Em algum momento eu soube, no início eu, inclusive, fui contra por razões específicas, eu até reclamei. Primeiro eu achava que era uma exposição desnecessária, porque seria até então a primeira vez que a gente estaria fazendo uma coisa pessoal para o presidente Lula. Até então, por exemplo, tinha tido o caso do terreno do instituto, bem ou mal, era para o Instituto Lula, não era pra pessoa física dele”, disse.
A afirmação foi feita em depoimento à juíza federal Gabriela Hardt, sucessora do juiz Sérgio Moro nos processos da operação Lava Jato. Os empresários Emílio Odebrecht e Alexandrino Alencar também falaram para a magistrada.
Os 3 depuseram no processo em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo reformas do sítio.
Nos depoimentos, os Odebrechts e Alexandrino reafirmaram o que disseram em acordo de delação premiada: a obra no sítio foi uma espécie de retribuição por favores prestados ao grupo pelo então presidente Lula.
O processo do Sítio de Atibaia é baseado na delação premiada do engenheiro Emyr Diniz Costa Júnior, que disse ter recebido R$ 700 mil para a compra de materiais e serviços relacionados à obra.
Além do depoimento, Costa Júnior entregou em novembro de 2017 ao juiz Sérgio Moro uma planilha constando o valor. Segundo o engenheiro, o pagamento teria saído do departamento de propinas da empreiteira, intitulado Setor de Operações Estruturadas.
De acordo com as investigações, as obras começaram no sítio quando Lula ainda era presidente. A propriedade não está no nome dele, mas era usada pela família do ex-presidente, conforme a força-tarefa da Lava Jato.
O ex-presidente Lula, Marcelo Odebrecht, Emílio Odebrecht, Alexandrino e mais 9 investigados são réus nesta ação penal.
DEPOIMENTOS
Alexandrino Alencar foi o 1º a ser ouvido, por volta das 14h. O ex-executivo da Odebrecht disse que as obras no sítio foram feitas a pedido da ex-primeira dama Marisa Letícia, que queria presentear Lula quando ele deixasse a presidência. Marisa morreu em fevereiro de 2017.
O ex-executivo afirmou que levou o pedido a Emílio Odebrecht, que autorizou a reforma no sítio.
“Emílio disse: ‘não, lógico. Eu acho que nós temos uma retribuição a isso, a tudo que o presidente fez pela organização’”, disse.
Alexandrino também confirmou o que já disseram outros delatores: após concluir a reforma, o empresário passou no escritório do advogado Roberto Teixeira, amigo de Lula, para regularizar a situação da obra.
MARCELO ODEBRECHT
Em seguida, foi a vez  de Marcelo Odebrecht depor à juíza federal. Além de citar o favor pessoal a Lula, Marcelo disse que, devido ao número de pessoas trabalhando na obra do sítio, havia dificuldade em manter sigilo, pois o risco de vazamento “era enorme”.
Segundo o empresário, a decisão de bancar as obras no sítio foi do pai dele e as despesas foram debitadas na planilha denominada “Italiano”, gerenciada pelo então ministro Antonio Palocci com contabilização de propinas que seriam destinadas ao PT.
“Eu até combinei com o Palocci. Vamos fazer aqui 1 débito na planilha Italiano de R$ 15 milhões, eu e você, que é para atender esses pedidos que nem eu e você ficamos sabendo que Lula e meu pai acertam”, afirmou.
Marcelo citou e-mails encontrados no computador pessoal dele que foram entregues à Justiça. Disse ao advogado de Lula, Cristiano Zanin, que as mensagens provam o que ele disse na delação.
“O que, por exemplo, complicou muito a vida do seu cliente não foi nem meus relatos, foram os e-mails”.
Durante o interrogatório, a juíza questionou se Lula “tinha ciência da reforma que estava sendo custeada em parte pela Odebrecht”.
Marcelo foi enfático em responder: “Ah, tinha, com certeza. E, olha, ele sabia que tinha. Eu não escutei isso de Lula, mas meu pai sempre deixou isso claro para mim que ele sabia que estava sendo custeado e dentro de casa todo mundo sabia que aquele sítio era de Lula”, afirmou.
O empresário também disse que “tinha ciência” de que seus líderes empresariais tinham que efetuar pagamento no interesse do PT, do PMDB (atual MDB), e do PP, no âmbito das diretorias da Petrobras.
EMÍLIO ODEBRECHT
O último a prestar depoimento nesta quarta foi Emílio Odebrecht. O empresário falou que não podia negar a reforma do sítio por causa de sua relação de mais de 20 anos com Lula.
“Como eu disse a Alexandrino: você me trazer isto, mesmo que eu quisesse negar, eu não tenho como negar por todos os ativos intangíveis de mais de 20 anos de convívio com o presidente”, disse.
Sobre os ativos intangíveis, o empresário disse que se tratava de impedimentos para a privatização da Petrobras.
“A questão da estatização da [área] petroquímica, que era sempre um desejo que a Petrobras tinha, eu precisava da posição dele. E fui muito claro com ele: eu preciso saber disso para decidir sobre o destino que eu dou à organização: sai, ou fica. Porque eu ter a Petrobras como minha concorrente e com esse processo contínuo de querer estatizar, eu não aceito”, disse.
Sobre o sítio, reafirmou que o pedido da reforma foi feito por Marisa Letícia.“Dona Marisa fez esse pedido a ele [Alexandrino Alencar], ele me veio, e eu aprovei. Se eu não tivesse aprovado, hoje nós não estaríamos sentados tratando desse assunto”, afirmou.
O QUE DISSERAM OS CITADOS
Em nota, a defesa de Lula afirma que os depoimentos desta 4ª feira “reforçaram que é falsa a acusação do Ministério Público contra Lula, buscando vincular contratos da Petrobras com supostas reformas em 1 sítio situado em Atibaia que pertence a Fernando Bittar e que foi frequentado pelo ex-presidente”.
Para a defesa, “Marcelo Odebrecht, que é citado expressamente na acusação como sendo a pessoa que teria oferecido vantagens indevidas para Lula interferir em contratos da Petrobras, afirmou categoricamente que isso não tem ‘aderência na realidade’, mesmo sendo delator e tendo recebido benefícios do Ministério Público para acusar Lula.”
“Os depoimentos fortaleceram o que sempre foi afirmado pela defesa de Lula: a narrativa que buscou vincular o ex-presidente a ilícitos ocorridos no âmbito da Petrobras é totalmente descabida e somente foi construída para submetê-lo a processos e condenações pré-estabelecidas no âmbito da Lava Jato de Curitiba”, disseram os advogados de Lula.
Roberto Teixeira disse que há uma clara intenção de criminalizar a advocacia. Profissional há 45 anos, Teixeira disse ainda que jamais praticou qualquer ato ilícito. O advogado disse que sempre pautou a conduta dele na ética e na legalidade.
O PT classificou os depoimentos em relação ao partido de mentirosos e afirmou que foram negociados em troca de redução de penas e de benefícios financeiros para criminosos confessos.(Poder360)